terça-feira, 3 de dezembro de 2024

Leitura dificílima (ou bueda difícil)

Há uns dias, a minha irmã de 12 anos mandou-me mensagem a pedir sugestões para um livro para ler e apresentar na aula de português. A minha irmã, pior que eu, é da geração alfa, descritos como nascidos já com Ipads embutidos. Felizmente, por ter pais quase com idade para serem avós dela (e com o mínimo de QI), tem gosto por livros desde pequenina. 

Lembrei-me dos livros que li e que me marcaram com a idade dela. Sugeri O Voo da CotoviaMeu Pé de Laranja Lima O Velho que Lia Romances de Amor. Ela ficou entusiasmada, mas quis confirmar com a professora. Claro, ainda sou só uma pseudo professora de português... 

Hoje voltou a casa e disse que eram “muito difíceis para a idade dela" e que devia optar por algo mais "simples". Mais leve. Algo como, sei lá, O Diário de um Banana ou qualquer coisa com “unicórnios” no título.

Agora, uma pausa para reflexão. Difícil? Para uma criança de 12 anos que já lê com fluidez? Com esta lógica, daqui a nada, ninguém lê Clássicos antes dos 30 ou ousa tocar em Camões antes da reforma. Ainda ontem saiu que a palavra do ano era Brain rot, por si só já é engraçado por não ser uma palavra, mas sim duas e também pelo significado que tem. A minha irmã, uma alegada vitima universal deste adjetivo, vai ler na mesma estes livros, mas está sujeita a apresentar Os Três Porquinhos. Sujeita a que não percebam o seu potencial. 

Será que temos tanto medo que as crianças pensem que as queremos proteger do desconforto de aprender? Lembro-me que, com a idade da minha irmã, li livros que nem sabia bem se estava a perceber na totalidade, mas que me deixaram ideias a marinar na cabeça para serem compreendidas ao longo dos anos. Há aspectos d’O Principezinho que sei que ainda não percebo por completo, vem com a idade.  E isso é bom. Ler é suposto fazer-nos pensar, desconstruir e, ocasionalmente, sentir-nos burros — porque é assim que crescemos, acredito eu, ainda estou em fase de crescimento. Só mentalmente, porque vou ter de ficar com a mesma altura desde os 12 anos, pelo menos que algo em mim cresça.

Mas não. Hoje parece haver uma obsessão por simplificar tudo. Livros curtos. Frases simples. Histórias que terminam com moral óbvia e feliz. Como se tivéssemos receio de que as crianças fossem “demasiado inteligentes”. Talvez seja isso. Talvez não seja culpa das gerações mais novas, mas sim de quem está acima. De quem decide. Porque, convenhamos, o pior que pode acontecer a uma sociedade é ter crianças que pensam de forma independente. Porque crianças assim crescem para ser adultos assim. E adultos assim tornam-se perigosos para o status quo. Ainda mais com professores que têm medo de não compreenderem aquilo que uma criança já consegue compreender. 

Portanto, cá estamos nós, a criar um mundo onde se tenta domesticar o pensamento desde cedo. E quando uma criança de 12 anos quer ler Sepúlveda e expandir os seus horizontes, dizem-lhe que não. Que é difícil. Que não é adequado. Eu pergunto: difícil para quem? O que é uma leitura difícil? Será mais fácil entender livros não os lendo? Não praticando? Isto, para mim, é de uma leitura difícil. 

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