segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Comunidade por Bárbara Rafael

Comentário a Comunidade de Luiz Pacheco

            Não era conhecedora da obra de Luiz Pacheco, tão pouco sabia que havia, ou houve, um escritor português com um estilo de escrita tão peculiar e próprio. Como tal, entrei em Comunidade “às cegas”.

            Normalmente, é durante a noite que os pensamentos têm tendência para voar para horizontes fora do quotidiano. Este livro de Luiz Pacheco introduz-nos um sujeito poético  “cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler”, que partilha a cama com quatro pessoas e reflete essa partilha.

            A cama surge como altar de uma missa interior. Ou então, a cama surge como tela ou musa do sujeito poético. Contudo,  não é o tópico de interesse deste homem, mas sim, um pretexto para pensar naqueles que lá estão deitados a dormir, a pensar, a existir...;

            Através de uma escrita bastante focada no corpo humano, o autor premeia-nos com uma narrativa palpável, que chega a despertar-me os cinco sentidos e, por isso, sinto o texto vivo, sinto os odores, os materiais, os sentimentos, etc. O corpo é o espaço ilimitado, onde tudo se manifesta: pensamentos, memórias, intrigas. A pontuação, principalmente a do primeiro parágrafo, acentua esta imersão sensorial, torna o texto mais rico e lírico, cada pausa iguala um pensamento e uma respiração. A literatura ganha vida, acelera quando tem de acelerar e para quando tem de parar, o texto passa a ser um pedaço da comunidade, é contentor de carne, pele e ossos.  

O primeiro parágrafo intrigou-me, remoí cada unidade de palavra e tentei dar significado ao texto, admito que por vezes possa ser um erro, nem tudo tem de fazer sentido. Assim sendo, fui à procura de respostas, li e reli e pouco esclarecida fiquei. Percebi, todavia, que era um texto metafísico, “Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme” (Pág. 19).

Metafísica. Pensamentos noturnos. É esse o motivo pela qual o sujeito poético escreve este livro – claro, na minha opinião – deitado ao luar observa aqueles que lhe são próximos de corpo, o quanto são extensões de si mesmo, mas que por motivos desconhecidos não lhes consegue ler a mente. Tenta ler a expressão corporal de Lina e os balbucios do bebé, porém, confrontado com os corpos encontra a razão para querer acordar ao amanhecer, o Corpo. Observa e percebe. A comunidade de corpos que vivem naquela cama dão-lhe motivos para a vida. Como tal, de certo modo, vejo o texto como uma ode ou exaltação ao corpo humano. Recorda-me as Odes de Álvaro de Campos, assim que o sujeito poético chega à conclusão da inevitabilidade da morte a escrita corrompe-se, onde havia pontos e vírgulas passou a haver interjeições e pontos de exclamação, “E receio, oh como receio, que os deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chega a manhã e eu esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões (...) que o meu coração eia! sus! bata (...)” (Pág. 20).

O sujeito poético não sabe onde começa o seu corpo e onde acaba os dos outros, são polvos, são uma comunidade alheia à sua existência e continuidade. A cama, “imagem literária”, é a tela de corpos humanamente finitos. O texto come, cheira e vive pelas descrições do corpo humano que dá, está, luta e sofre em comum.

Aqueles que acompanham, na cama, o sujeito poético são tentáculos de si, que darão vida à sua vida e que provarão a sua imortalidade. Não acabamos com a morte, acabamos com a comunidade.

Bárbara Rafael

27 de setembro de 2024

Dia Mundial do Tradutor

Hoje é o Dia Mundial do Tradutor. Já tive ocasião de o dizer: o tradutor é cosmopolita, o autor é (e, acho, deve ser) provinciano. É o tradutor que faz o livro viajar e, sendo o mesmo, ser outro. Viajar, pois. E um bom tradutor não traduz apenas, melhora. Há mesmo quem diga que o tradutor é o verdadeiro criador porque, ao contrário dos escritores, o tradutor não se arma em parvo.

Poema (com títulos de livros)

Por sugestão do professor, deixo-vos um pequeno poema que criei com títulos de alguns livros que se encontram nas minhas estantes.


"Entre o passado e o futuro

O esplendor do mundo

Vozes, anoitecidas

História de quem vai

E de quem fica."


Autores dos livros:

Elena Ferrante, Gonçalo Cadilhe, Hannah Arendt, Mia Couto

 

RMS

sábado, 28 de setembro de 2024

Burocrata vs. artista: veja as diferenças

 Ambos têm de fingir para serem bem-sucedidos. 

O burocrata tem de fingir que trabalha muito. 

O artista tem de fingir que não trabalha nada. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

2.8. Uma crónica de Miguel Esteves Cardoso

 Nem de propósito, hoje (25/9) a crónica no Público é sobre algo de que falámos nas aulas anteriores. 

(E esta crónica assenta que nem uma luva no ponto 2.8, certo?)



terça-feira, 24 de setembro de 2024

Dens sobre «Comunidade»

 Comunidade, ‘conjunto de pessoas que se-conhecem‘, um texto escrito de uma forma louca, com demasiadas palavras. é um verborreico ou um verborrágico o autor. a sua escritura é como a sua cama. os autores hoje já utilizam palavras deselegantes para fazer filosofia. há algo de abjeto nisto, e não é a pobreza, mas sim a falta de higiene, os lençóis com cocó e xixi e palhas podres toda. este “Turbilhão da Natureza no seu perpétuo móvel”. (..) “Somos puros. Sabemos e cumprimos.” um ser humano não tem outro sentido que ser uma máquina de reprodução? um determinismo biológico, “o Supremo Bem que me preocupa são eles, os bambinos, a minha imortalidade”. + Cemitério dos Prazeres. se calhar. sério? é isso o alvo “incerto como a nossa trajectória, e tudo estremecente de vida, ondulante e diversa”. não tão diversa, après tout.

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

O sino

 O sino é o episódio final da obra prima Andrei Rublev (1966) de Andrei Tarkovski. Várias coisas aqui são interessantes: 1) o episódio não se centra no protagonista mas num rapaz que, por morte do pai, é levado para construir um sino de igreja, pois antes de morrer o pai «ensionou-lhe o segredo» dessa incrível peça de escultura: levando meses a construir, carecendo de muitos materiais em condições de excelência (barro, madeira, metais), tão difícil de transportar como a pedra de Memorial do Convento, e, no fim, mais importante que tudo, tendo que soar bem, que fazer o som que os sinos fazem: chamando as pessoas, interpelando Deus.


Ver aqui a partir do minuto 44.

O filme fala do mistério da arte e da sua relação com o trabalho e a técnica  sem os quais nada é, mos quais não a esgotam, explicam ou sequer compreendem. 

terça-feira, 17 de setembro de 2024

Comunidade e outros textos de apoio

  1. Pode ler o texto de Luiz Pacheco aqui
  2. E rever a cena de abertura do filme Valerian aqui 
  3. Drummond aqui
  4. Documentário sobre Luiz Pacheco com gente muito douta e importante aqui
  5. O cachecol do artista (ainda Pacheco.)
  6. Entrevista na revista Kapa (1992).
  7. Charles Bukowski dando bronca.
  8. Bukowski sobre o tédio.
  9. Bukowski e o amor.
  10. «O Sacristão», de Somerset Maugham. 
  11. Fernando Aguiar e o poema-processo.
  12. Temas musicais do Joker de Heath Ledger. Quando fala, há um ruído de fundo a sublinhar algo.
  13. Debate no Parlamento sobre o casamento. Com respeito.
  14. Como a banda sonora muda a imagem
  15. Euforia com a violência na primeira parte de Laranja Mecânica. 
  16. Stalker de Andrei Tarkovsky. Filme com legendas em espanhol aqui
  17. O Monge e o Peixe de Michael Dudok De Wit
  18. Pai e Filha, também de De Wit, aqui
  19. Orson Welles: a arte ou a vida?
  20. Uma bela entrevista de Alberto Pimenta.
  21. Metástase I de Alberto Pimenta. 
  22. Uma modesta proposta de Jonathan Swift. Em espanhol: https://biblioteca.org.ar/libros/158423.pdf. E no original inglês aqui.  
  23. Cinco poemas concretos
  24. The Producers. O público passou a gostar quando viu como comédia. 
  25. Os Felizes da Fé (1985-2048). O documentário do Canal Odisseia aqui
  26. Charles Chaplin e a bandeira vermelha.
  27. Trair o sério no século XIII. Um poema escatológico-virtuoso aqui.  
  28. John Cage e a sua maravilhosa música: 4'33.
  29. Fado stand-up: a grande Hermínia Silva
  30. Po-ex.net - um belo arquivo.
  31. O humor de José Vilhena.
  32. O humor da Porta dos Fundos. Colonizado e Entrevista de emprego
Cantigas à desgarrada (23/10)
  1. Popular português
  2. Aluno vs. professor
  3. Teoria do Big Conflict
  4. Poesia violenta
A camisola do Fernando


Sumários

 Aula 1 (18/9) — Apresentação do programa, dos critérios de avaliação, do modus faciendi da cadeira e das datas de frequência e exame. A participação no blog é importante. Indicada ainda a primeira tarefa: ler «Comunidade» de Luiz Pacheco. A fechar, o interessante trecho de abertura do filme Valerian (2017), ao som de David Bowie.  

Aula 2 (23/9) — Dois casos de «escritores marginais» conforme a convenção: Luiz Pacheco e Charles Bukowski. Apresentação de alguns textos. Conversa sobre a interessante camisola do aluno Erasmus Fernando. 

Aula 3 (25/9) — Exercício em aula: comentar a «Comunidade». Notícia de uma infelicidade: a atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan em 2017 pôs em causa o bom funcionamento da disciplina? Dois casos cómicos de preconceito que dá errado: a acompanhante em foto de escritores e a esposa do Presidente croata. 

Aula 4 (30/9) — Homenagem a Kris Kristofferson, que abraçou Sinead O'Connor num dia mau. 



Na maratona, os precoces (MEC, Orson Welles, Rimbaud), os regulares, os serôdios (Saramago, Fernando Campos). 

Ser "contra os valores dominantes" não signica não ter valores.

Entrega dos trabalhos.

Leitura acompanhada: parênteses, vírgulas, pontos, pontos vírgulas, travessões, colcheias, semicolcheias, reticências. E os mais matreiros de todos, os invisíveis: pausas, parágrafos e a #€@ da minha mulher a chamar-me inteligente, perdão, inteligente

Outubro

Aula 5 (2/10)



Aula 6 (7/10)

Aula 7 (9/10)

Aula 8 (14/10) - 1. A incompetência alheia

1.1. A lambisgoia

Cheguei à aula mais cedo, havia uma professora ainda lá dentro a acabar com toda a calma os seus trabalhos, pigarreei, finalmente ela percebeu que eu já estava ali à espera e saiu com um sorriso: "Vai dar aula agora?" Sim, ia. Não a reconhecia e disse-lho: "Veio substituir o seu colega?" Ela respondeu espantada (o desaforo!) que não havia colega nenhum, desde o princípio do semestre era sempre ela que dava ali a aula. Aí irritei-me, porque ninguém faz de mim parvo. "Oiça, eu já vi muitas vezes o seu colega a dar a aula antes de mim!" E ela fazia que não percebia, a grande badameca. Até que perguntei: "Qual é a sua cadeira?" E ela disse que era qualquer coisa como Teoria da Linguística. Aí franzi o sobrolho: "Em que piso é que estamos?"

Era no dois e não no meu, o três. Verdade disse eu quando disse que não preciso que façam de mim parvo. (Para isso estou cá eu.)

1.2. Neste episódio, esqueci um princípio basilar: não partir do princípio de que eu tem sempre razão.  Talvez seja essa uma das boas lições das artes em geral e da literatura em particular, aceitar que nem sempre eu tem razão. 

2. Castelos no ar

O que não é necessariamente mau. Talvez seja interessante haver quem não queira ter razão, num mundo onde há castelos de gente cheia de razão, que sabe mesmo o que é bom, o castelo da religião, o castelo da política (o meu partido é o bom), o castelo da ciência (se diz que é ciência já nem precisamos de cumprir o método científico da a) tentativa e erro, b) verificação dos processos que levaram ao resultado X), basta a bata branca, como nos anúncios publicitários. 

2.1. No meio dos castelos, uma cabeça indefesa de um corpo indefeso enterrado na areia. De fora, só a cabeça. E é bem fácil vir alguém de cima e dar, com um taco de golfe, uma bela tacada. 

3. Como ler um texto?

3.1. Exemplos: dois casos de filme onde a banda sonora modifica o que vemos.

3.2. Quando chego a casa cansado, já sem neurónios, ligo a televisão - e hoje em dia nem preciso de me levantar, há o telecomando, abençoado telecomando que me permite mudar de canal sem ter de me levantar do sofá. Encontro por fim uma sitcom (comédia de situação), vou descontrair, é para rir. Mas como, de tão exausto sou, saber onde devo rir? Estou tão de rastos que já nem sei distinguir o que é engraçado ou não. Felizmente, a TV resolveu-me o problema, ao pôr gargalhadas enlatadas a assinalar quando devo rir, tal como os sinais da produção para o público em estúdio.

3.3. Em criança, a primeira bicicleta onde andei tinha rodinhas de lado, para me ajudar a não cair. Era bom, assim não esfolava os joelhos, mas assim eu tinha a ilusão de autonomia sem de facto ser autónomo. Um texto sem rodinhas é mais difícil e no própximo exercício daremos todos o exemplo disso. 

4. Húbris. O mito de Ícaro e as suas asas de cera. 

5. Exercício 5 em aula: comentar "Tafas, um pincel nosso". 

5.1. Algumas dicas a posteriori sobre que tipo de texto é este.

5.2. O narrador não será um perfeito mentecapto? Vejam como ele se perde sistematicamente em ninharias e se revela um odre de vento pomposo.  

6. Como ler?

6.1. Nada de angústias: sem ir ver «as soluções», ninguém sabe ler. 

6.2. Eu não sei. Tenho obviamente experiência acumulada, um grau académico & etc., mas nem isso é garantia de que, perante um texto, eu saiba como o ler. 

6.3. Por isso, se todos estamos às cegas, talvez não ter medo do texto seja uma boa ideia. 

Aula 9 (16/10)

aula 10 (21/10)

Aula 11 (23/10)

1. Conflito e teatro

1.1. O conflito reduzido ao osso: duas partes reclamando duplamente a razão e o equilíbrio mas saltando ambas ao pé coxinho: «Eu tenho razão, eu tenho a razão, eu sou equilibrado, ela/e é desequilibrada/o.»

1.2. Duas experiências do docente hoje: uma tentativa de roubo no metro, uma picardia num engarrafamento. 

Mostrando atenção, uma aluna questiona: «Mas afinal vossemecê veio de transportes públicos ou carro próprio?»

Boa questão. Qual das anedotas é real, se é que alguma é real? Mas ambas de certo modo são reais porque ambas ocorreram contar ao docente. 

2. Lei humana: Só se imagina o que se conhece.

2.1. Camões e Sófocles adivinharam muito antes o que António Damásio e Freud descobriram. 

2.2. Condição humana: entre deus e animais. 

2.3. E se o momento bíblico de Abraão fosse uma instrução sobre o princípio de justiça? Sê justo sem olhar a quem. (O oposto do tribalismo, certo? «O meu Benfica tem sempre razão.» «Diz-me quem fez a falta e eu então decidirei se foi grave ou não.»

3. Da Rap Battle à Cantiga ao desafio

3.1. Alguns exemplos

3.2. princípio do conflito: duas partes tentando desconcertar a outra

3.3. Exercício 10: faça um conflito em BD

3.4. FMI (1979) de José Mário Branco. Numa voz, muitas vozes.  

Aula 12 (28/10)

1. Mitos lembram rodas, de tanto caminharem ao longo do tempo

1.1. Sansão e Aquiles, a mesma luta: cabelos & calcanhar.

1.2. O santo padroeiro dos que falham mas não desistem será Sísifo? 

2. Grandes mestres da narrativa/ler BD

2.1. Vocês mesmos. Ninguém falhou, todos resolveram bem o improviso da aula anterior. Como? Onde aprenderam? Como aprenderam? 

2.2. Apresentação de algumas histórias da turma

2.3. Lemos quadrinhos como lemos um livro. 

3. Do conflito

3.1. O teatro é o espaço por excelência, seguido pelas cantigas ao desafio, batalhas Rap

3.2. E também pelo romance, novela, conto. O tamanho importa: num texto breve, há menos personagens, um conto pode mesmo ter só um ponto de vista, o romance tende a ter mais em confronto direto ou indireto

3.3. Até um poema pode ter conflito, mas é mais raro e, geralmente, do poeta consigo mesmo

3.4. «Transforma-se o amador na cousa amada, diz o stôr?» 

3.4.1. E, se em mim tenho a parte desejada, que mais posso eu desejar - é isso, stôr?»  

3.4.2. «Mas...» - assim começa o primeiro terceto deste soneto de Camões. Todos experimentámos já, numa conversa, alguém está à espera que o outro pare de falar para dizer: «Sim, sim, mas...» 

4. Preconceitos & poder

4.1. Não haverá alemães preguiçosos?

4. 2. Ingrid e a barbárie em 1961: o quando tem alguma importância, não?

4.3. PIGS > PIIGS > GIPSI. Uma história de acrónimos aparentemente inocentes




Aula 13 30/10) - Aula dos três exercícios

Exercício de leitura: cartoon da fogueira. Exercício de parvoíce: o sentido da vida.

Exercício de tiro ao alvo: para que serve a poesia. 

Novembro

Aula 14 (4/11) - Leitura criativa

Foi a chave para o vosso trabalho de casa. 


Aula 15 (6/11) - Fardas e gavetas

1. A disciplina podia chamar-se «Cadeira contra as gavetas»

1.1. As gavetas e as fronteiras ajudam. Mas também podem desajudar.

1.2. A literatura como uma das artes. Menos do que falar das margens, a ideia é lembrarmos que elas existem... e que desde há século e meio que é lá que se fazem muitas das coisas mais interessantes nas várias artes

1.3. «Isto não é poesia!» pode ser um belo elogio. 

1.4. A arte, ao contrário da política, não pode ser referendada

2. Ler para navegar o caos do labirinto

2.1. O fio de Ariadne

2.2. Minha mãe enviou-me à floresta - primeiro dia fora de casa

2.3. «O mito é um nada que é tudo»? Porquê?

3. O estranho caso do Público Enganado

3.1. The Producers, de Mel Brooks

3.2. Os Felizes da Fé e as verdadeiras manifestações contra o tempo

3.3. O cliente tem sempre razão? Mesmo a ler um poema? Teremos sempre de «explicar»?

4. Na foto com Paddy Cosgrove (CEO da Web Summit) com o primeiro-ministro e o presidente da câmara, quem está mesmo de farda? 










Aula 16 (11/11)

Aula 17 (13/11)

Aula 18 (18/11)

Aula 19 (20/11)

Aula 20 (25/11)

Aula 21 (27/11)

Dezembro

Aula 22 (2/12)

Aula 23 (4/12) - Não há aula, por deslocação de serviço

Aula 24 (9/12) - Não há aula, por deslocação de serviço

Aula 25 (11/12) - Frequência escrita

Aula 26 (16/12)

Aula 27 (18/12)

Programa

 Este é o blogue da disciplina de opção livre de Literaturas Marginais. Não é necessário frequentar um curso de literatura, embora ajude, porque esta é uma cadeira de literatura.

Docente responsável: rz@fcsh.unl.pt

Enviem uma mensagem a fim de serem convidados para co-autores deste blogue. E coloquem sempre como assunto: Literaturas Marginais ou Lit Marg.


Avaliação: participação e assiduidade (30-50%), frequência (50-70%) . Apresentação em aula: facultativa. Com 9 vai a exame. Com 12 dispensa. 

Frequência: 11 dezembro

Exame/melhoria: 20 janeiro

O blogue conta com os vossos contributos. Ideias soltas, reflexões, notícias, respostas a um ponto do programa. Nele espero que todos possamos partilhar textos e micro-ensaios, comentários avulsos que tenham a ver com o âmbito da cadeira. A participação influencia a nota, obviamente. 

E qual o âmbito da cadeira? Boa pergunta.


Em Literaturas Marginais são apresentados aos alunos subgéneros e textos que, por uma ou outra razão, não têm sido pacificamente aceites como fazendo parte do campo literário. Temos uma primeira divisão em dois grandes grupos: paraliteraturas impressas e paraliteraturas expressas.


O termo paraliteratura foi cunhado por Gérard Genette, e significa, à letra, algo que está próximo, ao lado da coisa literária. Parte da discussão é precisamente se o texto X ou a variante Y são/estão literatura.


O modelo seguido é o da amostra médica. Apresenta-se uma variante - digamos, uma gaveta conceptual - e em seguida um texto exemplar, quer representativo do género, quer quebrando o clichê sobre o género. Se possível o texto proposto será em português mas não necessariamente. No caso do policial propomos Um imenso adeus, de Raymond Chandler e/ou A mão esquerda do diabo, de Dennis McShade. 
Mas  podem (e fazem muito bem) ler outros textos em vez dos recomendados.

O critério para escolha dos textos pode ser o da sua importância (o caso de Solaris, de Stanislaw Lem, para a FC) mas pode também ser apenas - ou sobretudo - o de coincidir com os interesses do docente. Se no caso do humor/sátira escolho falar de José Vilhena e não de Lucrécio ou do Diabinho da Mão Furada é porque já escrevi livros sobre Vilhena.


O objectivo desta cadeira de opção é reflectir sobre um leque, não coerente, de géneros e formas que, de algum modo, não são geralmente integradas no (também discutível) cânone do que é considerado “literatura”. Fica claro que o programa não esgota o que possa ser “literatura marginal”. Cada item será acompanhado por um estudo de caso.

As aulas não têm de seguir a ordem do programa. Se vou a uma biblioteca não tenho de começar a ler pela letra A – o importante é sabermos em que ponto estamos – se no 5.6 ou no 1.4.  

O plágio é desaconselhado. Há plágio quando, por escrito, nos apropriamos das ideias ou palavras alheias sem as creditar. E como as creditamos? Por paráfrase ou citação entre aspas (ou, se tiver mais de quatro linhas, com destaque espacial), devolvendo o seu a seu dono. Eu posso publicar em livro poemas de Camões e receber eu o dinheiro (o pobre morreu há mais de 70 anos), mas não posso dizer que os poemas são meus. Moral: não creditar o autor é mais grave que ficar-lhe com o dinheiro. Todos os anos, inúmeros plágios são tão bem feitos que passam despercebidos. Parabéns aos autores da proeza. Mas um dia tudo se sabe. Não vos podendo desencorajar de plagiar, posso apenas dizer que, se descoberto, será punido. O que é pena, porque esta cadeira de opção pode ser divertida. 


Alguns textos de leitura obrigatória têm acesso pela internet. Sempre que possível, darei com tempo a ligação. O primeiro é Comunidade, de Luiz Pacheco, já para trazer lido na segunda aula (23/9) que pode ler aqui.


1. Literatura marginal 
1.1. Há um cânone literário?
1.2. Marginal – um conceito equívoco
1.3. Cultura popular e cultura de massa
1.4. O século XX: fronteira e (com)fusão
1.5. «Toda a literatura é marginal»?
1.6. «Toda a poesia é experimental», como diz Gastão Cruz?
1.7. O escritor marginal. Luiz Pacheco, Charles Bukowski.
1.8. O episódio do sino em Andre Rublev, de Tarkovski

 

2. Paraliteraturas impressas 
2.1. Literatura de cordel. Sugestão: o caso do Brasil
2.2. Literatura oral e tradicional. Camões à desgarrada.
2.3. Máquinas narrativas: o romance policial. Dennis McShade e A mão direita do diabo
2.4. Ficção científica ou ficção política? Stanislaw Lem, Solaris 
2.5. Imprensa do coração. A fotonovela de Corin Tellado
2.6. Sátira e humor. José Vilhena, Alberto Pimenta, Mário-Henrique Leiria
2.7. Banda desenhada/Literatura gráfica. Vânia, Escala em Orongo
2.8. A crónica. Lobo Antunes, Miguel Esteves Cardoso
2.9. Escritores de canções. Sérgio Godinho, Leonard Cohen
2.10. Outras

3. Paraliteraturas expressas 

3.1. Teatro/happening/performance. Caso: Felizes da Fé (ligação para filme abaixo).
3.2. Poesia visual/experimental Po.Ex (Hatherly, Melo e Castro), Fernando Aguiar
3.3. Livro objecto /Mail Art. Fernando Aguiar/José Oliveira
3.4. Cinema. Vale Abraão (Agustina e Oliveira)
3.5. Rádio/TV Dennis Potter
3.6. Internet, hipertexto, e-leitores Os Surfistas, Arquivo Pessoa
3.7. Blogues, Twits
3.8. Slam Poetry. Os Poetas do Povo. O Rap.
3.9. O Facebook. O Twitter. Os novos Haikai. 
3.10. Outras

4. Alguns t
emas no ar do tempo 

  • Arte e poder
  • Língua e poder
  • Classe e poder
  • As mulheres, essa imensa minoria
  • Que tipo de conhecimento é este? Que mapas promove? E para quê?
  • O poema ensina a cair?
  • Censura a favor ou contra?  
  • Literatura e Zeitgeist
  • Sociedade
  • Comunicação
  • Hierarquias sociais
  • Cultura popular, erudita, de massa
  • Ao centro tudo! à periferia nada!

·         Etc.

 

Bibliografia ativa (amostra médica)
ARAGÃO, ANTÓNIO [1966], um buraco na boca. Funchal: ed. do A.
AGUIAR, Fernando (1981), O Dedo, Lisboa, Ed. 
Do A.
BARTHES, Roland (1977), Fragments d'un Discours Amoureux, Paris, Seuil. 
Ed. ut.: Fragmentos de um Discurso Amoroso, Lisboa, Ed. 70, s.d.
BAXTER, Glen (1990), The Billiard Table Murders, London, Picador
CÓRTAZAR, Julio (1967), La Vuelta al Dia en Ochenta Mundos (2 tomos), Madrid, Siglo XXI de España, 1973
MILLER, Frank (1987), The Dark Knight Returns, New York, DC Comics
MOTA, Augusto; DIAS, Nelson (1973), Wanya – Escala em Orongo, Lisboa, Gradiva 2008
PINTO, Júlio;SARAIVA Nuno (1996), Filosofia de Ponta, Lisboa, Contemporânea
RODRIGUES, Graça Almeida (1981), Vida e Obra de Frei Lucas de Santa Catarina, Lisboa, Imprensa Nacional
HATHERLY, Ana (1975), A Reinvenção da Leitura - Breve Ensaio Crítico seguido de 19 Textos Visuais, Lisboa, Futura

HERBERT, Frank [1965], Duna. Lisboa: Relógio d'Água, 2020. 
McCLOUD, Scott (1993), Understanding Comics – The Invisible Art, Northampton MA, Kitchen Sink Press
OULIPO (1973), La Littérature Potentielle, Paris, Gallimard
SPIEGELMAN, Art (1986), Maus – A Survivor's Tale, Vol. I., New York, Pantheon. Ed. ut.: Maus, Lisboa, Difel, 1988 (1991), Maus – A Survivor's Tale,Vol. II, New York, Pantheon. 
Ed. ut.: Maus, Lisboa, Difel, 1995
VONNEGUT, Kurt (1973), Breakfast of Champions, London, Cape Bibliografia passiva

Bibliografia passiva

BORQUE, J.M. DIEZ (1972), Literatura y Cultura de Masas, Madrid, Al-Borak
BOURDIEU, Pierre (1992), Les Règles de l'Art – Genèse et Structure du Champ Littéraire, Paris, Seuil
CASTRO, Ernesto Melo e; HATHERLY, Ana (1981), Po.Ex – Textos Teóricos e Documentais da Poesia Experimental Portuguesa, Lisboa, Moraes
LOPES, Silvina Rodrigues (1994), A Legitimação em Literatura, Lisboa, Cosmo
-- PIMENTA, Alberto (1978), O Silêncio dos Poetas, Lisboa, Regra do Jogo
-- (1994) A Magia que tira os Pecados do Mundo, Lisboa, Cotovia
SARAIVA, Arnaldo (1974), A Crítica Literária e a Crítica Literária em Portugal, Porto, FLP
-- (1975), Literatura Marginal izada, Porto, s.e.
-- (1980) Literatura Marginal izada, Porto, Árvore
ZINK, Rui (1999), Literatura Gráfica, Lisboa, Celta
-- (2000) O Humor de Bolso de José Vilhena, Lisboa, Celta
 



Netografia

http://www.nfb.ca/film/ladies_and_gentlemen_mr_leonard_cohen
http://arquivopessoa.net/

PACHECO, Luís, Comunidade. https://pervegaleria.eu/PerveOrg/Surrealismo/montagem%20livro_demo.pdf

Luiz Pacheco (o documentário): https://www.youtube.com/watch?v=vs72TLvQa8k
Luiz Pacheco: O Cachecol do artista https://www.youtube.com/watch?v=kkaZyR2KpNE
Geração Feliz: https://www.youtube.com/watch?v=r7oL-Wfz4bI

Etc…

Um poema conjunto

  Estava na aula de Literaturas Marginais                               E achei que não íamos trabalhar mais Mas o professor mencionou as no...