segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

A gentileza de um passo calmo, do nosso passo🐌

       Sendo o mundo diferente de olhar para olhar, e a nossa carapaça-lar a maior influência, até que ponto nos podemos dividir em positivos ou negativos? Pessoalmente, não gosto de ervilhas, mas só o trabalho de as tirar do arroz faz-me aceitá-las e acabar a comer sem reclamar. Às vezes, há dias menos bons que também temos de engolir para chegar aos melhores. No filme «Perfect Days» (2023), de Wim Wenders, é-nos apresentado Hirayama, um senhor que possui o pior ofício (remunerado) do mundo: é empregado de limpeza de casas de banho públicas. Ao longo de 12 dias acompanhamos a sua vida, monótona e aborrecida. São 2h de filme, nas quais a grande maioria dos minutos são ocupados com macacões azuis, utensílios de limpeza e sanitas. Porém, foi nomeado para 39 prémios, vencendo 8. Afinal, qual é o fascínio? Trata-se da simplicidade da vida, que não chega a ser simplória; é uma aceitação do que há de bom até no que há de mau. O filme preenche-se por pequenos momentos que num todo fazem a diferença, como se se tratasse de adições de açúcar na massa do bolo. Nunca chega a afetar diabéticos, mas também não nos deixa a querer mais. É o grau perfeito da existência humana e da sua leveza contra o seu peso, é a «Insustentável Leveza do Ser» (Kundera, M. 1984). A certa altura, no filme, há um diálogo sobre rugas nos cantos dos olhos e outro sobre a sobreposição de sombras humanas, orientando-nos para a marca que deixamos (ou que queremos vir a deixar) em nós e no mundo que nos rodeia. Em «Perfect Days» temos a filosofia (PhD) abordada nas aulas; a importância da forma sobre o conteúdo, por meio da banda sonora espetacular; e o futuro imaginado/concretizado nas ruas de Tóquio e nos visuais de tirar o fôlego. É o apogeu. 



        Noutro tom, e relembrando a reviravolta apresentada hoje com a música «Não Venhas Tarde» (1959), de Carlos Ramos, retomo o ímpeto dos contadores de histórias portugueses. Narrativas correm-nos no sangue desde os primórdios da existência, aliás, somos conhecidos por acrescentar pontos aos contos, e por termos câmaras de vigilância vivas em cada janela, dando voz aos contos rebuscados. Criando temas para conversas de café, à mesa e com o café já servido, possuímos a carta da criação de surpresa na manga. Numa letra onde o entusiasmo é colocado ao colo da mulher, Carlos Ramos apresenta uma visão antagónica ao que se sucedia aquando do lançamento da música. Era o homem quem andava na boa vida, e tinha a mulher em casa a potenciar-lhe a vida boa. Eis o elo de surpresa de 1959. Em 2001, Camané chega-se à frente e, inspirado por esta narrativa, oferece-nos o suspense adequado à altura com «Ela tinha uma amiga». A letra, escrita por Manuela Freitas e José Mário Branco, aborda uma situação semelhante, porém inversa. É o homem que espera pela mulher e que, no fim, decide contentar-se com a amiga que lhe transmite as más notícias diárias. Ambos os cantores adequam as suas músicas aos tempos, assimilando o que seria entusiasmante para os recetores e o que os colocaria nas bocas dos velhos dos cafés. Ambos foram bem-sucedidos. Realmente não passamos de caracóis com lares circunstanciais às costas.

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