sábado, 9 de novembro de 2024

Perdemos a melhor Breakdancer

 Rachael Raygun Gunn desistiu do Breakdance.  Esta modalidade, que começou como uma expressão de rua e nasceu na cena cultural underground de Nova Iorque, afirmou-se sempre como um espaço de liberdade, de autoafirmação e, sobretudo, de rutura com as normas rígidas das danças tradicionais. O breakdance foi, desde a sua origem, um grito de revolta criativa que reivindicava o direito de subverter qualquer regra. No entanto, ao ser institucionalizado, e ainda mais com a sua inclusão nas Olimpíadas, esta dança de rebeldia encontrou-se, paradoxalmente, submetida a padrões.

A participação de Gunn nas Olimpíadas de Paris foi marcada por críticas intensas. Alguns diziam que a sua performance era pouco técnica, outros afirmavam que ela não demonstrava as habilidades exigidas pelo breakdance competitivo. Mas será que não era essa a essência do breakdance? Será que Gunn, ao "falhar" em cumprir certos critérios, não estava precisamente a fazer aquilo que o breakdance pede: quebrar as normas? Ao ser bastante criticada pela sua "falta de técnica" não estava implícito nas criticas que era merecedora da medalha?

É irónico pensar que esta modalidade, que foi outrora uma dança de resistência, acabaria, ela própria, a estabelecer normas de desempenho. Com a sua entrada no cenário competitivo e a codificação de estilos e movimentos, o breakdance parece ter perdido uma parte da sua essência original. Gunn, ao recusar-se a limitar a sua expressão aos critérios técnicos esperados, colocou-nos perante uma questão fundamental: ao institucionalizar o breakdance, não estamos a esvaziá-lo da sua alma, a torná-lo uma sombra do que foi? Gunn pode ter sido criticada por "não saber dançar" no sentido técnico, mas é provável que tenha sido, paradoxalmente, uma das poucas a realmente dançar Breakdance.

Esta é uma questão que se coloca a todas as formas de arte que passam do submundo para os grandes palcos. Em nome da validação social e da aceitação institucional, essas formas de arte acabam por se submeter às expectativas do "grande público". Gunn, ao recusar essas expectativas, lembrou-nos que o breakdance é, ou deveria ser, uma dança de resistência. Assim, a sua desistência, longe de significar uma derrota, pode ser vista como uma vitória — uma forma de reafirmar o direito à liberdade no espaço que, desde o início, sempre lhe pertenceu.

Se há uma "melhor" dançarina de breakdance, talvez seja aquela que não se limita aos julgamentos exteriores e continua a dançar, não para ser aplaudida, mas para continuar a quebrar as normas. Gunn pode ter sido criticada por "não saber dançar", mas, no fundo, pode ser que ninguém tenha compreendido o verdadeiro alcance do seu movimento. 

Quantas artes e artistas vamos perder para os grandes públicos?

1 comentário:

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