Fingimento, ou ingenuidade em
demasia, traduzem-se em circulação sanguínea. Há um corpo que vive e que
demonstra a outros que o faz, graças às pancadas (em excesso) em tenra idade,
ou graças ao talento inato para sentir. No fundo, são sinónimos de arte
poética.
Admito que gosto imenso do
resultado da violência em Adília Lopes. Podem lhe ter batido, pode ela mesma
ter dado um beijinho ao chão com a testa, não me importa. A minha faculdade do
juízo ativa-se e atira foguetes, faz-me sentir o sangue a correr e uma vontade
absurda de viver. Entendimento e imaginação apresentam-se em palco para me dar
o maior espetáculo do gosto. Poesia tem esse fim; poesia é o holofote que encandeia
ou funde: se não for louca q.b., não exerce em nós coisa alguma. A noção de
prazer/desprazer pode ser definida como a sensação de algo, fora do neutro e da
tela branca em que adormecemos o corpo. É um estado de se sentir e, citando
Saramago (mais concretamente Clara, na peça de teatro "A segunda vida de
Francisco de Assis", 1987), «Se tens um coração de ferro, bom proveito. O
meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia».
Não venho em defesa específica de
Adília Lopes, nem do seu transtorno esquizoafetivo diagnosticado, antes venho
em prol da arte que causa reação, dos poemas que nos fazem duvidar se todos os
cérebros albergam sinapses. Sou muito nova para ter certezas na vida, porém,
sei que só vivo para sentir. Caso contrário, já teria comido laranjas e bebido
um copo de leite à noite, resultando na comprovação do mito de morte certa. Até
a minha morte seria uma dúvida, com fim esclarecido, com sensação de prazer.
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