Tenho de admitir que estava receosa em relação a este filme. Gostei imenso do primeiro, mas a ideia de um “musical” deixou-me desconfiada. Não queria criticar antes de ver, mas tinha medo de que não resultasse. No entanto, depois de assistir, saí da sala aliviada, (o que é curioso, tendo em conta o tipo de filme que é) e a sentir-me um pouco louca. Embora as músicas, por vezes, parecessem excessivas e me dessem vontade de arrancar os personagens daquela fantasia e trazê-los de volta à realidade crua do primeiro filme, no final, tudo fez sentido. As músicas, muito criticadas, acabaram por contribuir para a atmosfera alucinatória e fantasiosa que reflete o estado mental do protagonista.
O filme Joker: Folie à Deux joga magistralmente com a linha entre o real e o imaginado, construindo uma narrativa onde as alucinações de Arthur Fleck e a partilha do seu delírio com Harley representam a dissolução das fronteiras entre o concreto e o ilusório. Esta é uma das questões mais inquietantes da obra: a incerteza constante sobre o que estamos realmente a ver e o que é fruto da mente perturbada dos protagonistas. Senti que estava constantemente a ser enganada, aquele que seria o cenário confiável, sem música, sem atuação, podia continuar sem ser o verdadeiro. Nunca saberei.
Desde o primeiro filme Joker (2019), Arthur Fleck é apresentado como um narrador não confiável, e essa desconfiança aumenta ainda mais em Folie à Deux. A narrativa obrigou-me a questionar continuamente a veracidade dos eventos, criando uma experiência fragmentada e desconcertante. Até mesmo momentos que parecem objetivos e claros podem ser, na verdade, manifestações de delírios ou distorções da realidade psicológica dos personagens. O filme, assim, finta a nossa compreensão ao sobrepor camadas de realidade que se confundem entre si. O que vemos no ecrã pode parecer literal, mas a própria estrutura da narrativa e o estado mental dos personagens sugerem que nenhuma imagem ou cena pode ser tomada como uma verdade absoluta. ....................................... a partir daqui contem spoiler...........................................
Todo o filme foi interessante, mas o final... o que dizer daquele fim?! Arthur gravemente ferido, após ser esfaqueado, entra numa alucinação em que participa de um espetáculo com Harley. Neste delírio, ele canta sobre o futuro do seu filho Gabriel, insinuando que este virá a ser o próximo Joker, o herdeiro da sua loucura e caos. A música, elemento que já serve como expressão do estado mental de Arthur ao longo do filme, aqui atua como um comentário alegórico, quase profético. O espetáculo, grandioso e teatral, contrasta fortemente com a realidade sombria e violenta que o personagem enfrenta. Este contraste ressalta a desconexão entre o que Arthur deseja acreditar e o que realmente está a acontecer.
Neste momento, a ideia de Gabriel ser o próximo Joker surge como uma visão onírica, uma fantasia que Arthur constrói à medida que enfrenta a morte iminente. Vê o seu legado a ser transmitido ao filho, um pensamento que lhe oferece algum conforto, dando-lhe um propósito contínuo, mesmo que destrutivo. A alucinação é marcada por uma celebração surreal e macabra da insanidade, onde o delírio final de Arthur serve como um refúgio face à realidade que o rodeia.
No entanto, o filme regressa abruptamente ao mundo real (acho eu que é o real, seja lá o que isso quer dizer), onde Arthur Fleck está, de facto, esfaqueado e a morrer no chão. A transição entre o sonho e a realidade é brutal, expondo o colapso final de Arthur. Não vemos um herói trágico a passar o manto, mas sim um homem destruído pela sua própria loucura. Ele está simplesmente à beira da morte, uma vítima do caos para o qual ele contribuiu.
O detalhe mais perturbador desta cena é o homem que o esfaqueou, agora em segundo plano, a cortar um sorriso no seu próprio rosto. O sorriso do Joker, que ao longo do filme simbolizou caos e anarquia, está agora literalmente a ser inscrito no corpo de outra pessoa. Acredito que esta ação pode ser interpretada de várias formas:
Continuidade do Caos: O homem que corta um sorriso no seu próprio rosto representa a ideia de que o "Joker" não é apenas Arthur Fleck, mas uma força maior, uma ideia contagiosa. O legado do Joker não é algo que Arthur passa intencionalmente ao seu filho, mas sim uma espécie de "vírus social" que contamina qualquer um que entre em contacto com ele. Ao cortar o sorriso, este homem parece assumir o papel do Joker, sugerindo que o caos que Arthur personificava não acaba com a sua morte, mas continua a existir, agora em outra forma.
A Insanidade Coletiva: O gesto de cortar o sorriso pode simbolizar a disseminação da loucura. Mesmo que Arthur esteja morto fisicamente, o impacto psicológico que ele deixou persiste. A ação do homem sugere que a loucura que consumiu Arthur não é uma experiência individual, mas algo que se expande, que contamina outros e que se propaga indefinidamente. A insanidade de Arthur é, portanto, transmissível, perpetuando-se mesmo após a sua morte.
A Despersonificação do Joker: A morte de Arthur pode marcar o fim do homem, mas o sorriso cortado no rosto do outro indivíduo sugere que o "Joker" transcende o indivíduo. Ao longo do filme, o Joker é apresentado menos como uma pessoa e mais como uma ideia de revolta, caos e rutura com a ordem social. Com Arthur morto no chão, o sorriso inscrito no rosto do seu assassino indica que o Joker nunca foi apenas uma pessoa, mas uma força maior, uma ideia que sobrevive e se perpetua nos corpos de outros.
O final de Joker: Folie à Deux é tanto trágico quanto perturbador, pois expõe a natureza cíclica da loucura e da violência. A visão de Arthur sobre o seu filho Gabriel como o próximo Joker é uma fantasia que contrasta com a brutalidade da sua própria morte. No entanto, o filme parece sugerir que, independentemente de Arthur estar vivo ou morto, o conceito de "Joker" , como ideia, loucura e caos, continua a viver noutras pessoas, perpetuando-se numa espiral de insanidade que não tem fim.
Gostei muito de ler. A pergunta que me fez — como melhorar? — tem aqui a resposta. Praticando. Claro que posso criticar (até posso "desancar") mas penso que seria fraca ajuda. Há coisas que descobrimos melhor sozinhos. (E, depois, dialogando com colegas.)
ResponderEliminar