A poesia raramente se apresenta como uma autobiografia direta, em que cada verso descreve abertamente a vida de quem a escreve. No entanto, é sabido que a arte poética tem uma forma subtil de se entrelaçar com a história pessoal do autor, revelando segredos e desejos que muitas vezes ficam nas entrelinhas, mais implícitos do que confessados.
Escrever poesia é, no fundo, um ato de autobiografia. É uma forma de dialogar com as nossas sombras, de resgatar memórias que julgávamos perdidas e de dar forma a emoções que não encontram lugar no discurso do quotidiano. A cada poema, algo de nós se deixa entrever, ainda que disfarçado por metáforas ou camuflado por ritmos. Pode ser um verso solto sobre a infância, uma imagem difusa de um amor antigo, ou até o eco de uma saudade que ainda mal conseguimos nomear. Mas o curioso é que a poesia, tal como a vida, não segue linhas retas nem cronologias rígidas. Há poemas que nos revelam o que ainda não vivemos, que nos antecipam momentos ou nos espelham um futuro que não sabemos se desejamos. São pequenos recortes do que poderíamos ter sido, do que tememos ser, ou simplesmente do que somos, mas ainda não admitimos. Diria que sou também o resultado da poesia que escolho ler. Até a poesia em formato de prosa. Somos resultado daquilo que lemos.
Escrever poesia é como revisitar um diário onde as páginas se escrevem sozinhas, não pela ordem dos dias, mas pela intensidade das sensações. Talvez por isso, muitos dos poemas que escrevemos se tornem uma espécie de autobiografia não oficial. São eles que, no futuro, quando os revisitarmos, contarão aos outros (e talvez a nós mesmos) a história de quem fomos, mesmo que disfarçados por rimas ou metáforas.
Eu diria que talvez os pensamentos dominicais (quando o ritmo desacelera e as distrações da semana se dissipam a minha mente começa a vagar e encontro questões que persistem, não resolvidas, até voltarem a ser matutadas de domingo a oito dias, quando novamente me encontrar sem nada para fazer) são a maior forma de arte poética em formato de autobiografia. Só não são poemas por não estarem em verso. Alguns exemplos dos meus pensamentos dominicais:
- Talvez Deus não seja uma entidade única, mas sim a incorporação de vários atos em várias entidades. Eu sorrio para idosos para que não pensem que sou uma delinquente.
- Tenho pena das cerejas que não estão agarradas a outra. Para sempre destinadas a serem ingeridas a solo.
- Não percebo como escolhem amar com o coração. Entregar um órgão tão importante por amores corriqueiros. O coração não regenera. Não seria melhor amarem com o fígado?!
- Falam sobre o lóbulo frontal (associado a funções cognitivas superiores, como tomar decisões, motivação, resolução de problemas, planeamento e atenção) estar apenas completamente desenvolvido aos 25 anos, mas por essa altura, toda a minha vida já devia estar resolvida.
- Agora parece que há uma competição para ver quem está pior, quem toma mais comprimidos, quem já teve mais consultas de psicologia e quem percorreu mais vezes os corredores das urgências. Não podemos jogar ao contrário? Ou não podemos jogar todos a esse e perder?
- Tudo o que é inacabado é inesquecível!!!
- Quando era pequena e jogava às escondidas acreditava que ao fechar os olhos, ao ficar sem ver as pessoas, que também ninguém me via. Ao longo do tempo deixei de olhar nos olhos das pessoas, porque acredito que assim não olham para mim e não há o risco de me verem.
- Sempre pensei que os cabelos e as unhas cresciam nas extremidades. Que o início era sempre o mesmo. Acho que isso diz muito sobre mim, nunca sinto que consigo ter um novo início por mais que cresça.
- Escolho o gelado cor de manga e não cor de laranja, porque prefiro manga.
- Será que, como há pessoas com dois pés esquerdos, também há pessoas com dois lados esquerdos de todo o corpo? Por isso é que conseguem amar tanta gente? Por terem dois corações?
- Quando é que vou usar os autocolantes que estou a guardar para o momento perfeito? Estarei eu a dar à luz e a colar autocolantes na testa do médico? Estarei eu a ver a minha filha a casar-se e a usar os meus autocolantes para limpar as lágrimas? Estarei eu a morrer e a levar os autocolantes colados em mim? Enterrem-me com autocolantes.
- O quanto confiava nos meus pais para acreditar que os beijinhos deles curavam as minhas feridas... Hoje poderiam beijar-me o cérebro?
Todos estes pensamentos parecem muito pessoais, mas aquele que eu diria que mais me define é que sinto uma insatisfação com a letra K no alfabeto. Ela vem demasiado cedo, devia estar mais perto do Q ou mesmo do WXY.
Se a poesia é a arte de dizer o indizível, quantos de nós já escrevemos a nossa própria biografia sem saber?
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