Comentário a Comunidade de Luiz Pacheco
Não
era conhecedora da obra de Luiz Pacheco, tão pouco sabia que havia, ou houve,
um escritor português com um estilo de escrita tão peculiar e próprio. Como
tal, entrei em Comunidade “às cegas”.
Normalmente,
é durante a noite que os pensamentos têm tendência para voar para horizontes fora
do quotidiano. Este livro de Luiz Pacheco introduz-nos um sujeito poético “cansado de ler parvoíces que só em português
é possível ler”, que partilha a cama com quatro pessoas e reflete essa
partilha.
A
cama surge como altar de uma missa interior. Ou então, a cama surge como tela
ou musa do sujeito poético. Contudo, não
é o tópico de interesse deste homem, mas sim, um pretexto para pensar naqueles
que lá estão deitados a dormir, a pensar, a existir...;
Através
de uma escrita bastante focada no corpo humano, o autor premeia-nos com uma
narrativa palpável, que chega a despertar-me os cinco sentidos e, por isso,
sinto o texto vivo, sinto os odores, os materiais, os sentimentos, etc. O corpo
é o espaço ilimitado, onde tudo se manifesta: pensamentos, memórias, intrigas. A
pontuação, principalmente a do primeiro parágrafo, acentua esta imersão
sensorial, torna o texto mais rico e lírico, cada pausa iguala um pensamento e
uma respiração. A literatura ganha vida, acelera quando tem de acelerar e para
quando tem de parar, o texto passa a ser um pedaço da comunidade, é contentor
de carne, pele e ossos.
O primeiro parágrafo
intrigou-me, remoí cada unidade de palavra e tentei dar significado ao texto,
admito que por vezes possa ser um erro, nem tudo tem de fazer sentido. Assim
sendo, fui à procura de respostas, li e reli e pouco esclarecida fiquei.
Percebi, todavia, que era um texto metafísico, “Em toda a cidade que dorme e
respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se
esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo
diante da minha pequena tribo que dorme” (Pág. 19).
Metafísica. Pensamentos
noturnos. É esse o motivo pela qual o sujeito poético escreve este livro –
claro, na minha opinião – deitado ao luar observa aqueles que lhe são próximos
de corpo, o quanto são extensões de si mesmo, mas que por motivos desconhecidos
não lhes consegue ler a mente. Tenta ler a expressão corporal de Lina e os
balbucios do bebé, porém, confrontado com os corpos encontra a razão para
querer acordar ao amanhecer, o Corpo. Observa e percebe. A comunidade de corpos
que vivem naquela cama dão-lhe motivos para a vida. Como tal, de certo modo,
vejo o texto como uma ode ou exaltação ao corpo humano. Recorda-me as Odes de
Álvaro de Campos, assim que o sujeito poético chega à conclusão da
inevitabilidade da morte a escrita corrompe-se, onde havia pontos e vírgulas passou
a haver interjeições e pontos de exclamação, “E receio, oh como receio, que os
deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chega a manhã e eu
esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões (...) que o meu coração eia!
sus! bata (...)” (Pág. 20).
O sujeito poético não
sabe onde começa o seu corpo e onde acaba os dos outros, são polvos, são uma
comunidade alheia à sua existência e continuidade. A cama, “imagem literária”,
é a tela de corpos humanamente finitos. O texto come, cheira e vive pelas
descrições do corpo humano que dá, está, luta e sofre em comum.
Aqueles que acompanham,
na cama, o sujeito poético são tentáculos de si, que darão vida à sua vida e
que provarão a sua imortalidade. Não acabamos com a morte, acabamos com a
comunidade.
Bárbara
Rafael
27 de
setembro de 2024
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