segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Comunidade por Bárbara Rafael

Comentário a Comunidade de Luiz Pacheco

            Não era conhecedora da obra de Luiz Pacheco, tão pouco sabia que havia, ou houve, um escritor português com um estilo de escrita tão peculiar e próprio. Como tal, entrei em Comunidade “às cegas”.

            Normalmente, é durante a noite que os pensamentos têm tendência para voar para horizontes fora do quotidiano. Este livro de Luiz Pacheco introduz-nos um sujeito poético  “cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler”, que partilha a cama com quatro pessoas e reflete essa partilha.

            A cama surge como altar de uma missa interior. Ou então, a cama surge como tela ou musa do sujeito poético. Contudo,  não é o tópico de interesse deste homem, mas sim, um pretexto para pensar naqueles que lá estão deitados a dormir, a pensar, a existir...;

            Através de uma escrita bastante focada no corpo humano, o autor premeia-nos com uma narrativa palpável, que chega a despertar-me os cinco sentidos e, por isso, sinto o texto vivo, sinto os odores, os materiais, os sentimentos, etc. O corpo é o espaço ilimitado, onde tudo se manifesta: pensamentos, memórias, intrigas. A pontuação, principalmente a do primeiro parágrafo, acentua esta imersão sensorial, torna o texto mais rico e lírico, cada pausa iguala um pensamento e uma respiração. A literatura ganha vida, acelera quando tem de acelerar e para quando tem de parar, o texto passa a ser um pedaço da comunidade, é contentor de carne, pele e ossos.  

O primeiro parágrafo intrigou-me, remoí cada unidade de palavra e tentei dar significado ao texto, admito que por vezes possa ser um erro, nem tudo tem de fazer sentido. Assim sendo, fui à procura de respostas, li e reli e pouco esclarecida fiquei. Percebi, todavia, que era um texto metafísico, “Em toda a cidade que dorme e respira, eu luto com a dispneia e escrevo. Em toda a cidade que repousa e se esquece, na Avenida dos Combatentes eu debato-me contra a morte e escrevo diante da minha pequena tribo que dorme” (Pág. 19).

Metafísica. Pensamentos noturnos. É esse o motivo pela qual o sujeito poético escreve este livro – claro, na minha opinião – deitado ao luar observa aqueles que lhe são próximos de corpo, o quanto são extensões de si mesmo, mas que por motivos desconhecidos não lhes consegue ler a mente. Tenta ler a expressão corporal de Lina e os balbucios do bebé, porém, confrontado com os corpos encontra a razão para querer acordar ao amanhecer, o Corpo. Observa e percebe. A comunidade de corpos que vivem naquela cama dão-lhe motivos para a vida. Como tal, de certo modo, vejo o texto como uma ode ou exaltação ao corpo humano. Recorda-me as Odes de Álvaro de Campos, assim que o sujeito poético chega à conclusão da inevitabilidade da morte a escrita corrompe-se, onde havia pontos e vírgulas passou a haver interjeições e pontos de exclamação, “E receio, oh como receio, que os deuses a valer me castiguem! E desejo, oh como desejo, que chega a manhã e eu esteja respirando ainda pelos foles dos pulmões (...) que o meu coração eia! sus! bata (...)” (Pág. 20).

O sujeito poético não sabe onde começa o seu corpo e onde acaba os dos outros, são polvos, são uma comunidade alheia à sua existência e continuidade. A cama, “imagem literária”, é a tela de corpos humanamente finitos. O texto come, cheira e vive pelas descrições do corpo humano que dá, está, luta e sofre em comum.

Aqueles que acompanham, na cama, o sujeito poético são tentáculos de si, que darão vida à sua vida e que provarão a sua imortalidade. Não acabamos com a morte, acabamos com a comunidade.

Bárbara Rafael

27 de setembro de 2024

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