Portugal, terra de santos, pecadores e indignações de altar. Desta vez, a controvérsia não foi gerada por um sermão inflamado ou por um milagre duvidoso, mas por uma jovem, a Marie, que decidiu gravar um vídeo na Igreja da Nossa Senhora da Conceição, em trajes que dariam a Nossa Senhora um bom motivo para corar. A reação? Um clamor nacional! Afinal, profanaram o templo! Sacrilégio! Chamem os guardiões da moral cristã e o Ministério Público, porque agora é caso sério!
Enquanto a paróquia corre para redigir queixas formais e lançar comunicados, fica difícil não notar o contraste: vídeos irreverentes causam um pandemónio que nem a troca do pão pelo corpo de Cristo em versão sem glúten conseguiria. Mas e aqueles escândalos graves, daqueles que realmente desafiam o espírito das Escrituras, como abusos e encobrimentos? Esses geralmente são recebidos com um silêncio celestial ou, na melhor das hipóteses, com um "vamos rezar por eles".
Marie pediu desculpas. E que desculpas! Disse que só queria rezar, "descontraída como sempre", com "slime na mão" quem diria que um simples brinquedo pegajoso seria interpretado como um artefato blasfemo? Até sugeriu que as pessoas se ocupassem de algo mais produtivo, como adotar uma galinha. Palavras sábias, Marie. Se tivesse “a” em vez de “e” já seria mais uma virgem idolatrada.
É fascinante observar o peso das prioridades. A roupa curta num altar é alvo de fúria coletiva, mas a justiça divina (ou terrena) para casos de abuso infantil parece estar sempre atrasada, esperando pelo último julgamento (ou pelo arquivamento).
Nos Estados Unidos aconteceu parecido e, como sempre, aconteceu primeiro, porque Portugal até em melindres paroquiais é mais atrasado. Uma cantora, Sabrina Carpenter, foi muito criticada por ter gravado um videoclipe em trajes menores numa igreja. A mesma apenas respondeu às acusações dizendo “Jesus was a carpenter”.
Então, talvez devêssemos pensar: será que a ira sagrada seria melhor direcionada? Em vez de gastarmos energia com a irreverência de quem, no fundo, só queria brincar com a fé, que tal não dedicar o mesmo fervor para exigir transparência e mudanças reais em instituições que dizem representar o sagrado? Até lá, parece que a indignação seguirá focada nos trajes inadequados, e o inferno será reservado para quem não usa calças compridas em solo sagrado.
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